Segurança

Técnicas e Segurança

Quais os perigos que podemos encontrar nas cavernas?

Essa é uma pergunta que aflige a maioria das pessoas iniciantes no meio espeleológico. Por outro lado, até mesmo para os mais experientes, fica difícil enumerar todo tipo de obstáculo. A cada exploração nos deparamos com novos desafios que exigem técnicas e equipamentos específicos, força de vontade e, em alguns casos, uma certa dose de criatividade. E talvez seja essa o maior desafio de uma caverna: a imprevisibilidade.

Outra característica básica do mundo subterrâneo é o isolamento. Ao entrarmos numa caverna estamos deixando para trás todo o conforto, segurança e facilidades do mundo externo. Qualquer imprevisto pode se tornar um sério problema, uma vez que a comunicação, o transporte e até mesmo o acesso às áreas mais isoladas de uma caverna podem demandar muito tempo. Com isso, uma equipe de exploração deve ser auto suficiente, não devendo contar com recursos ou ajuda externa.

 

Os perigos que não existem.

  • Animais Perigosos: Você não vai encontrar monstros ou animais perigosos. No máximo alguns grilos e aranhas que vão se sentir mais ameaçados com a sua presença do que causar incômodos. Também os morcegos não são animais ameaçadores. A maioria deles se alimenta de frutas e pequenos insetos. Até mesmo os hematófagos (que se alimentam de sangue) nunca atacam uma pessoa em atividade.

 

  • Falta de ar: Também não falta ar dentro das cavernas. Mesmo nas grutas mais profundas podemos respirar sem dificuldade. Algumas poucas exceções são encontradas em cavidades com grandes concentrações de matéria orgânica. Durante o processo de decomposição desses depósitos, grandes quantidades de CO2 podem ser liberadas, ficando confinadas nas galerias mais profundas. Nesses casos a pessoa sente cansaço intenso, dificuldade em respirar e dor de cabeça. A chama do capacete torna-se fraca e sem brilho. A melhor coisa a fazer numa situação dessas é sair imediatamente . Em concentrações maiores o CO2 pode causar desmaios a até a morte. Ex: Abismo da Liasa e Gruta Água d’Olhos, em Itacarambi/MG.

 

  • Desmoronamentos: Ao contrário do que muita gente pensa, as grutas são locais muito estáveis. Não existe o perigo delas caírem sobre nossas cabeças (não é esse o motivo que nos obriga a utilizar capacete…). Ao longo dos milhares de anos de evolução elas “buscaram” uma forma mais estável, caracterizada pelas seções abobadadas dos tetos. Mesmo os grandes desmoronamentos, frequentemente encontrados nas cavernas, são fenômenos muito antigos.

 

Os perigos que existem.

Além do isolamento e da imprevisibilidade, podemos citar outras particularidades do mundo subterrâneo que necessitam de cuidados por parte dos exploradores.

  • Condutos alagados: Neste item incluímos as galerias percorridas por rios, tomados por lagos. Além de dificultar os movimentos, acentua a perda de calor, a sensação térmica e o peso das roupas e equipamentos. Também devemos estar atentos para locais onde o nível d’água pode subir bruscamente impedindo o retorno. Esse fenômeno é muito comum dentro das cavernas. Muitas delas funcionam como pontos de captação de água (sumidouros) sendo freqüentes as inundações. Na época das chuvas devemos evitar esse tipo de caverna. Podemos encontrar rios subterrâneos com volumes expressivos e força suficiente para arrastar facilmente uma pessoa. No Brasil o melhor exemplo disso é a Lapa do São Vicente (Goiás) que possui 5 m3/s na época da seca. Suas cachoeiras e correntezas conseguiram deter as equipes de exploração por mais de 15 anos.

 

  • Abismos: O piso de uma gruta nem sempre é plano. Podemos encontrar desníveis que chegam a mais de 100 metros de profundidade. Felizmente existem técnicas e equipamentos apropriados para esse tipo de exploração que garantem a segurança, conforto e versatilidade. Cordas, equipamentos de descida e subida são desenvolvidos especialmente para fins espeleológicos, sob rígidos controles de segurança. Uma vez empregados de forma correta e respeitados os seus limites, o risco de acidente praticamente é eliminado. Encontramos muitas grutas verticais na região sul de São Paulo (PETAR), no Pico do Inficionado (MG) entre outros. Mesmo assim, a grande maioria das grutas brasileiras não podem ser consideradas “verticais”. Atualmente o maior desnível do Brasil é a Gruta do Centenário (com 481 m) enquanto na Europa e México são comuns abismos com mais de 1.000 m de profundidade. O recorde mundial fica na Gouffre Mirolda / Lucien Bouclier (França) com 1.733 m – veja as mais profundas.

 

  • Labirintos: Algumas grutas possuem uma complexidade estrutural que exige cuidados adicionais para o retorno à superfície. Casos mais extremos são raros no Brasil, limitando-se ao norte da Bahia (Toca da Boa Vista e Barriguda) e alguns casos menores em Minas Gerais. Entretanto podemos encontrar alguma dificuldade em locais específicos dentro de uma gruta, notadamente os desmoronamentos. O espeleólogo deve ter a sua atenção redobrada nesses casos, tentando observar detalhes para garantir o seu retorno. Dica: nem tudo que vemos na ida será visto na volta. Por isso, ao entrar numa caverna, olhe para trás nos locais mais complicados. É esta visão que você deverá identificar na saída.

 

  • Estreitos: Uma galeria pode ser pequena “por natureza” ou estar parcialmente obstruída por sedimento, blocos e espeleotemas. Mas, a única coisa certa, é que ninguém sabe se existe ou não prosseguimento sem conferir os locais mais apertados. E não basta olhar de longe. Muitas vezes é preciso chegar perto para poder encontrar uma passagem escondida por uma saliência do teto ou da parede. Existem inúmeros casos de quilômetros de condutos que foram desvendados depois de vencido uma obstrução. Superar este tipo de obstáculo exige uma certa dose de habilidade, flexibilidade e, principalmente, tranqüilidade do espeleólogo. Ex: Lapa das Pacas (Lagoa Santa/MG), Conduto da Cobra na Gruta Rei do Mato (Sete Lagoas/MG) e dezenas de outras.

 

Dicas

  • Nunca entre numa caverna sozinho.
  • Tranqüilidade é fundamental. Mesmo numa situação onde tudo parece errado, é importante manter o controle.
  • Respeite os seus limites; e tenha certeza que eles devem ser diferentes nas outras pessoas.
  • Evite levar coisas desnecessárias para a gruta. Programe sua visita e atividades levando somente o essencial. Logicamente deve estar incluída na “bagagem” uma reserva de iluminação (pilhas e/ou carbureto), roupas secas (no caso de permanências mais prolongadas), saco para lixo, água e alimento.
  • Deixe anotado em casa o local e hora previstos para a saída, bem como o nome e telefone de outras pessoas do grupo que possam ser acionadas em caso de atraso.
  • A roupa deve ser leve e folgada, permitindo uma ampla movimentação mesmo quando molhada. O calçado deve ter um solado anti-derrapante e o uso de capacete é fundamental.
  • A iluminação é básica para que a pessoa se sinta segura. O ideal é que ela esteja fixa no capacete deixando as mãos livres. Caso ainda não a tenha, use a lanterna presa por uma alça.
  • Cuidado especial deve ser dado às grutas com água. Além das dificuldades evidentes em se transpor um trecho alagado com roupa e mochila, a água exige outras precauções devido a perda acelerada de calor, embalagem de roupas, alimento e carbureto etc.

 

“(…) não há grandes ou pequenos, todos os problemas são iguais e, se uns são mais perigosos, são sempre os mais banais. Aqueles que não chamam a atenção.”

Amyr Klink: